Mudei mas não cortei o cabelo

A última vez que eu prometi não cortar mais meu cabelo drasticamente e sozinha tinha recém completado meus 30 anos. Lá se foram mais um bom par de anos para que ele voltasse a balançar solto – isso das raras vezes em que não estava preso no corriqueiro coque ou rabo-de-cavalo. Estava solteira e com a sensação constante de um peso de mochila nas costas. Nem eu me segurava. E pois pronto, lá se quebrou a promessa e se foram mais centímetros de madeixas.

Estava eu num quartinho sem vergonha de hotel no sul de Londres, após uma chegada não muito calorosa, um fechamento de malas e venda de restos que não agüentariam esperar pelo meu retorno, romances fortes e reencontros que passei emocionalmente quase desapercebida e um sentimento de terra que se assenta no chão depois de passado o tufão. P-R-E-C-I-S-A-V-A cortar meu cabelo.

Era a fase “Não fala comigo”. Nem vem. E se vier, que fale algo que me interesse. Assim, com aquele ato, eu já cortei metade do planeta masculino que busca mulheres de beleza natural. Nunca fui muito boa nisso.

A primeira vez que cortei drasticamente o dito cujo foi contra minha vontade. Devia ter lá pelos 11 anos e lembro da minha mãe me obrigando a cortar. Eu sempre fiquei charmosa com o cabelo curto mas passei a analisar o motivo de eu querer cortar um grande pedaço da minha feminilidade com esse ato. Ou que tipo de auto-punição eu me infringia com isso. Tem gente que corta os pulsos num acesso de raiva, eu cortava o cabelo.

E a aventura não terminou aí. Passadas umas semanas decidi ir a um salão. Em Londres. Rodei o Soho mas gente, salão moderno pra mim não dá. Nem em SP nem em lugar nenhum. Me põe numa barbearia ou me booka pra um trabalho de styling que um amigo maquiador em 5 minutos dá um jeitinho e eu ainda saio com aquela cara ½ bonita / ½ moderna, que era a linha que então fazia. Resolvi radicalizar e passear pelos salões de Hackney. Ia vendo as mulatas com as cadeiras redondas, cheias de si e de tranças no cabelo e aquele jeitinho maroto que me lembrava o Brasil. Pronto, achei meu lugar.

Eu era o oposto de qualquer pessoa que freqüentava tais cadeiras. Se as negras possuem muito cabelo eu era quase uma careca, ela não sabia nem como pegar em minhas madeixas. E para falar inglês na minha primeira semana com a turma de Hackney. Esquece, vai aí.

E de lá pra cá resolvi decidir, já que prometer não fez muita diferença, deixar meu cabelo o mais natural possível. Sem tinturas, sem radicalismos. E não é que a minha vida mudou de verdade!?!

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